Fiat Doblò: 25 Anos de uma Lenda Inesperada – Do Carro “Feio” ao Ícone Versátil do Brasil
Em 2025, celebramos um marco que talvez pouca gente imaginasse há um quarto de século: os 25 anos do Fiat Doblò no Brasil. Lançado inicialmente na Europa no ano 2000 e desembarcando em terras brasileiras no ano seguinte, este veículo singular desafiou todas as expectativas, superou um início controverso e cravou seu nome na história automotiva nacional. De um design que muitos torciam o nariz, considerado “esquisito” ou até “feio” por alguns, o Doblò ascendeu ao posto de um dos carros mais queridos e bem-sucedidos da Fiat, tornando-se sinônimo de versatilidade, espaço e inovação no marketing.
Para entender a trajetória do Doblò, precisamos voltar no tempo, para o início dos anos 2000. O mercado brasileiro de veículos, em plena efervescência, buscava opções que fossem além do trivial. Famílias cresciam, pequenas empresas prosperavam e a demanda por carros que pudessem se adaptar a múltiplas funções era palpável. É nesse cenário que o Fiat Doblò, com sua proposta de unir um carro de passeio espaçoso a um utilitário leve, surge para preencher uma lacuna.

A Chegada de um “Extraterrestre” no Mercado
A Fiat, sempre atenta às nuances do consumidor brasileiro, percebeu que havia um nicho carente. Os concorrentes diretos, como os franceses Citroën Berlingo e Peugeot Partner, já tentavam, com algum sucesso, conquistar o segmento de utilitários leves. No entanto, o Doblò chegou com uma proposta diferente: um equilíbrio quase mágico entre a robustez de um veículo de trabalho e o conforto e a praticidade de um carro familiar. Era alto, quadrado e incrivelmente espaçoso – características que, à primeira vista, poderiam afastar o público acostumado a linhas mais convencionais.
O desafio da marca italiana era monumental. Como lançar um carro que, nas fotos, parecia desajeitado, mas que na prática entregava uma experiência surpreendente? A própria equipe da Fiat, encarregada do lançamento, expressava dúvidas. Murilo Moreno, então gerente de publicidade e produção da Fiat, relatou em entrevistas recentes o choque inicial: “Eu olhei o Doblò e pensei: vocês estão de brincadeira. Custei a resolver o problema da imagem da Fiat e vocês me trazem um carro esquisito desses.”
As pesquisas de mercado da época apenas confirmavam o temor. A percepção inicial, baseada em imagens estáticas, era negativa. O design não cativava. Mas havia um ponto de virada crucial: a experiência ao vivo. “As pessoas viam a foto e achavam o carro feio. Mas quando desciam e entravam nele, se apaixonavam”, lembra Moreno. E com razão. O Doblò oferecia um habitáculo generoso, repleto de porta-trecos inteligentes, e a inovação de ser o primeiro carro nacional com opção de sete lugares, permitindo até mesmo que adultos de estatura média se mantivessem em pé dentro dele. Era um paraíso de funcionalidade e espaço, um verdadeiro trunfo para famílias grandes ou para quem precisava de um veículo versátil para o trabalho e lazer. Essa combinação de espaço interno e capacidade de carga o tornava um dos carros espaçosos para família mais atraentes da época, e um utilitário esportivo versátil em sua própria categoria, mesmo antes do boom dos SUVs.

O Golpe de Gênio: Marketing Que Quebrou Paradigmas
Diante de um produto tão controverso no visual, mas tão revolucionário na funcionalidade, a Fiat precisava de uma estratégia de marketing igualmente audaciosa. E foi exatamente o que aconteceu. A campanha de lançamento do Doblò é, até hoje, estudada como um case de sucesso e faz parte das campanhas publicitárias memoráveis da história brasileira.
A sacada veio com o uso da icônica música “Like a Virgin”, de Madonna, acompanhada de uma frase provocativa: “Tem coisas que a gente diz na vida e depois se arrepende. Pense duas vezes antes de dizer que você não vai ter um Fiat Doblò.” O tom desafiador do comercial, que usava a crítica ao design como um convite à descoberta, foi um divisor de águas. De repente, o Doblò, antes alvo de murmúrios, virou tema de conversa nacional. A campanha não só evitou que as pessoas falassem mal do carro antes de conhecê-lo, mas as incitou a experimentar, a entrar e a se surpreender. Esse tipo de marketing automotivo inovador virou uma aula de como transformar uma potencial fraqueza em uma força avassaladora.
Mas a Fiat não parou por aí. A marca apostou pesado na televisão, inserindo o Doblò de forma massiva e estratégica no imaginário popular. Ele foi o carro oficial do “Casa dos Artistas”, no SBT, e também transportou os participantes do “Big Brother Brasil”, na Globo. Celebridades como Hebe Camargo ganharam um exemplar e o apresentaram em seu programa, e o veículo ainda fez aparições em novelas de sucesso como “O Clone”. O Doblò estava em todo lugar, tornando-se uma presença familiar e desejável, mesmo para aqueles que inicialmente o consideravam “feio”.
Silvio Santos e o “Milagre” de Vendas
O ápice da estratégia televisiva, e talvez o momento mais folclórico da história do Doblò, aconteceu no programa de Silvio Santos. A ideia inicial era simples: o apresentador mostraria uma foto do carro. Mas Silvio, com sua genialidade imprevisível, resolveu improvisar. “O Silvio pediu para colocar o comercial inteiro no ar e começou a brincar com os participantes, falando do carro por quase dez minutos”, contou Moreno. O clímax veio quando o “Homem do Baú” anunciou que a Fiat daria um Doblò para cada um dos participantes. A comoção foi geral, uma festa no palco e na casa dos espectadores.
O impacto foi explosivo e imediato. “No dia seguinte, já tinha cliente na concessionária com o cheque em mãos dizendo ‘quero o carro azul daquele do programa'”, relatou Moreno. “O Doblò virou sucesso de um dia para o outro.” Naquele mesmo fim de semana, a Fiat fechou o patrocínio com a Globo para o Big Brother Brasil, garantindo que o carro estivesse nas duas maiores emissoras simultaneamente. O Doblò vendia tudo o que era produzido, chegando a dominar 80% do seu segmento por meses, tornando-se quase impossível encontrá-lo nas lojas.
Os números confirmam a magnitude desse sucesso. A Fiat esperava vender cerca de 1.500 unidades no primeiro ano. No entanto, segundo dados da Fenabrave, em 2003 (o primeiro ano com registro oficial completo), foram 6.728 emplacamentos – um resultado que superou em muito as expectativas mais otimistas. O que começou como uma aposta de risco, um tiro no escuro em um design controverso, transformou-se em um triunfo comercial estrondoso, solidificando a história da Fiat no Brasil com mais um capítulo de ousadia e sucesso.
A Evolução e a “Brasileirização” do Doblò
O Doblò estreou com uma gama versátil, pensada para atender a diversas necessidades: versões para cinco ou sete passageiros, com uma ou duas portas laterais, e as opções Cargo, voltadas ao transporte de mercadorias. As motorizações iniciais incluíam o Fire 1.3 16V e o Torque 1.6 16V. Com o tempo, o Doblò foi ganhando a cara do Brasil, adaptando-se às tendências e demandas locais.
Em 2003, a Fiat soube capitalizar sobre o crescente espírito aventureiro que começava a moldar o mercado automotivo brasileiro. Nasce então o Doblò Adventure, uma versão com molduras plásticas nos para-lamas, suspensão elevada e um visual mais robusto e off-road. Era a resposta da Fiat à demanda por veículos que transmitissem liberdade e capacidade de encarar qualquer terreno. Dois anos depois, o motor 1.8 8V de origem GM, com 103 cv, substituiu o antigo 1.6, conferindo mais força e torque ao modelo. Em 2006, séries especiais como a Try On e a Adventure Original adicionaram ainda mais personalidade à linha.
O ápice da inovação e da “brasileirização” do Doblò veio em 2008, com o lançamento do Adventure Locker. Este foi o primeiro utilitário nacional a oferecer bloqueio de diferencial, uma tecnologia que aprimorava significativamente a tração em terrenos de baixa aderência. Com o Locker, o Doblò Adventure se consolidou como uma opção única, transitando com maestria entre os carros de passeio e os comerciais leves, oferecendo uma capacidade off-road moderada que nenhum outro veículo de sua categoria entregava. Para quem buscava o melhor carro para carga e passageiros com um toque de aventura, o Doblò era a resposta. E, para famílias numerosas, ele se destacava entre os carros 7 lugares acessíveis.
A Única Reestilização e os Anos Finais
A Fiat esperou até 2010 para promover a única reestilização visual significativa do Doblò. A mudança focou principalmente na dianteira, que ganhou novos faróis, grade e para-choque. O objetivo era claro: modernizar o visual e tornar o Doblò mais palatável a um público que já reconhecia suas qualidades, mas que, talvez, ainda se incomodava com o design original. As linhas ficaram mais suaves, menos “quadradonas”, e reforçaram o apelo familiar e contemporâneo do modelo.
Nesse mesmo ano, as versões HLX e Adventure receberam o novo motor 1.8 16V E.torQ, desenvolvido pela própria Fiat, garantindo mais desempenho e eficiência. O Doblò continuou firme em sua jornada, ganhando séries especiais como a Xingu (2011) e a Extreme (2016), esta última com central multimídia, acompanhando as tendências de tecnologia automotiva.
No entanto, a partir de 2016, o peso do tempo começou a ser sentido. Novas tendências de mercado, com o crescimento exponencial dos SUVs compactos e a evolução dos furgões, começaram a ofuscar a proposta original do Doblò. As versões 1.4 e Cargo foram descontinuadas, restando apenas a Adventure por mais alguns anos. Em 2020, o Doblò teve um breve retorno na configuração furgão, até ser oficialmente descontinuado em 2021, encerrando um ciclo de duas décadas de produção no Brasil.
Um Legado de Versatilidade e uma Saudades Sentida
Mesmo nos seus anos finais, já mostrando as rugas da idade e a necessidade de uma nova geração (que já existia na Europa, mas não foi trazida para o Brasil), o Doblò encerrou sua vida vendendo bem. Em 2021, foram 5.333 unidades entre os automóveis e 956 entre os veículos comerciais leves. Isso demonstra a força de sua proposta e a fidelidade de sua clientela até o fim.
Para a versão furgão, a Fiat tentou sucedê-lo indiretamente com a Fiorino e, mais recentemente, com a Scudo. Contudo, tal como a Volkswagen Kombi, nenhum desses modelos consegue replicar a mesma combinação de tamanho, motorização, capacidade ou preço do antigo utilitário. A Fiorino é menor e mais focada em carga leve; a Scudo, por sua vez, é um furgão maior, mas com uma proposta de preço e uso diferente. Essa lacuna fez com que uma parte significativa dos antigos proprietários e fãs do Doblò se sentisse “órfã” de um sucessor à altura.
O Fiat Doblò deixou um legado duradouro no Brasil. Ele provou que, com uma estratégia de marketing inteligente e um produto que entrega valor e funcionalidade inegáveis, até mesmo um design considerado “fora do padrão” pode se transformar em um ícone de sucesso. Sua história é um testemunho da capacidade da Fiat de entender o mercado brasileiro e de se adaptar às suas necessidades, criando veículos que não apenas vendem, mas que se tornam parte da memória afetiva dos consumidores.
Hoje, em 2025, enquanto celebramos seus 25 anos, o Doblò continua a ser uma presença constante nas ruas do país, seja no transporte de famílias, na prestação de serviços ou como um robusto parceiro de trabalho. No mercado de compra e venda de carros usados, ele ainda mantém um bom valor de revenda de veículos por sua durabilidade e versatilidade. Ele pode ter saído de linha, mas sua lenda, a de um carro que superou o preconceito estético para se tornar um gigante da praticidade e da popularidade, permanece viva na história automotiva brasileira. O Doblò não foi apenas um carro; foi um fenômeno cultural e um mestre da reinvenção.

