O Ícone Vermelho Solitário: A Fascinante Jornada da Única Ferrari F40 no Brasil
Poucos nomes no universo automotivo ecoam com tanta reverência e misticismo quanto “Ferrari F40”. Uma obra-prima nascida em um momento crucial da história da engenharia e do design, ela transcende a mera definição de um automóvel para se tornar um símbolo de paixão, desempenho intransigente e uma era de ouro que talvez jamais se repita. Concebida para celebrar os 40 anos da Ferrari e, ironicamente, para ser o último grande projeto aprovado pessoalmente pelo Comendador Enzo Ferrari, a F40 não é apenas um carro – é uma declaração, um testamento e um artefato histórico.
Em um mundo onde superesportivos se tornam cada vez mais digitalizados e filtrados, a F40 permanece como um farol de pureza mecânica, uma máquina bruta, visceral e recompensadora para aqueles que ousam domá-la. Seu estilo inconfundível, assinado por Leonardo Fioravanti na Pininfarina, com linhas aerodinâmicas agressivas, entradas de ar funcionais e o icônico aerofólio traseiro, faz dela uma escultura em movimento. O motor V8 biturbo, um coração pulsante de 478 cavalos de potência, acoplado a um câmbio manual de cinco marchas, sem qualquer assistência eletrônica de tração ou estabilidade, oferece uma experiência de condução que beira o ritual. É o carro que separa os verdadeiros pilotos dos meros condutores, exigindo respeito e habilidade em cada centímetro de asfalto.
Agora, imagine a surpresa, o fascínio e o privilégio de saber que, em meio à vasta frota de veículos que circulam pelas estradas e cidades do nosso extenso Brasil, uma dessas joias raras não apenas existe, mas tem uma história profundamente entrelaçada com o próprio tecido da nossa modernização automobilística. Sim, é um fato que, mesmo em 2025, a lista de Ferrari F40s oficialmente registradas e com permanência legal no território brasileiro se resume a um único exemplar. Esta F40 não é apenas um carro raro; é uma lenda viva, um pedaço da história da Ferrari e, inegavelmente, um capítulo fascinante da própria história automotiva do Brasil. Como uma máquina de tal calibre encontrou seu caminho até aqui? Quem teve a honra e a responsabilidade de ser seu guardião? E onde ela repousa hoje, distante dos olhares curiosos e das lentes dos entusiastas?

Este artigo é um mergulho profundo na saga da única Ferrari F40 brasileira, um convite a desvendar os mistérios e as curiosidades que cercam este ícone vermelho. Prepare-se para uma viagem que transcende a velocidade, explorando o colecionismo de alto nível, a valorização de supercarros, o investimento automotivo exclusivo e o legado duradouro de uma das maiores criações da engenharia italiana.
A Genese de uma Lenda: O que Define a Ferrari F40?
Para entender a relevância da Ferrari F40 brasileira, é fundamental compreendermos a magnitude do modelo em si. Lançada em 1987, a F40 foi concebida para ser a celebração máxima dos 40 anos de uma marca que já era sinônimo de excelência e paixão. Mais do que isso, foi o último modelo aprovado pessoalmente por Enzo Ferrari, que viria a falecer em 1988. Este detalhe por si só já a reveste de um simbolismo inigualável, tornando-a um elo direto com o visionário fundador.
A filosofia por trás da F40 era clara: construir o carro de rua mais rápido, leve e visceral que a Ferrari já havia produzido, sem concessões. Inspirada nos carros de corrida do Grupo B – uma categoria de rali extinta por sua brutalidade e perigo – a F40 foi despojada de qualquer luxo ou assistência eletrônica desnecessária. Seu chassi era uma célula monocoque de fibra de carbono, um material revolucionário para a época, que contribuía para seu peso incrivelmente baixo de apenas 1.100 kg. O motor, um V8 de 2.9 litros com dois turbocompressores IHI, entregava 478 cavalos de potência. Pode não parecer um número estratosférico pelos padrões atuais de 2025, onde carros elétricos familiares superam essa marca, mas a entrega de potência era bruta e sem filtros, catapultando a F40 de 0 a 100 km/h em cerca de 4,1 segundos e alcançando uma velocidade máxima de 325 km/h. Na década de 80, este era um território inexplorado para carros de rua, tornando-a o primeiro carro de produção a superar a barreira dos 320 km/h.

A pureza da F40 era evidente em cada detalhe: vidros de policarbonato para reduzir peso, maçanetas internas eram substituídas por cabos, o acabamento interno era minimalista, e o ar-condicionado, embora opcional em algumas unidades, era considerado um luxo desnecessário por muitos puristas. Ela foi projetada para sentir a estrada, para comunicar cada nuance ao motorista, desafiando-o a dominar sua força. Essa ausência de filtros eletrônicos, combinada com seu design atemporal, garante à F40 um lugar de destaque não apenas como um supercarro, mas como um ícone automotivo global e um dos carros mais colecionáveis e valorizados no mercado de carros clássicos de luxo. A manutenção de ícones automotivos como a F40 é um desafio e um privilégio, refletindo o compromisso de seus proprietários em preservar um pedaço da história automobilística.
Inicialmente, a Ferrari planejou produzir apenas 400 unidades da F40, o que por si só já a tornaria extremamente rara. No entanto, devido à demanda insana e ao falecimento de Enzo Ferrari, a produção foi estendida, resultando em cerca de 1.315 unidades entre 1987 e 1992. Algumas versões ainda mais extremas foram criadas para competição, como a F40 LM (Le Mans) e a F40 GTE, que elevavam a potência para mais de 700 cv, demonstrando o potencial latente do projeto original.
A Aterrissagem Inesperada: Como a F40 Chegou ao Brasil
A história da única F40 residente no Brasil é tão notável quanto o próprio carro. Ela se inicia em um período de profundas transformações para o país. Em 1990, o então presidente Fernando Collor de Mello promulgou a liberação da importação de veículos estrangeiros, um marco que encerrou décadas de protecionismo e isolamento do mercado automobilístico brasileiro. Até então, o brasileiro estava acostumado apenas com carros de produção nacional, e a chegada de modelos importados representava uma janela para o mundo, um sinal de modernização e um aceno ao consumo que havia sido reprimido por tanto tempo.
Foi nesse cenário de efervescência e novidade que a Fiat, que detém parte do controle acionário da Ferrari, orquestrou a vinda de uma Ferrari F40 ao Brasil. O objetivo inicial era fazer dela a estrela máxima do Salão do Automóvel de São Paulo de 1990, um evento que prometia ser um divisor de águas. No entanto, antes mesmo de pisar no pavilhão de exposições, a F40 protagonizou um momento que entraria para o folclore político e automotivo nacional.
Em uma cena que hoje parece quase inacreditável, a F40 foi utilizada por Fernando Collor em um breve, mas icônico, passeio de 8 km entre a Granja do Torto e a Casa da Dinda, em Brasília. A imagem do presidente da República ao volante de um dos supercarros mais cobiçados do planeta, desfilando pelas ruas da capital federal, tornou-se um símbolo poderoso da abertura econômica e da ousadia de uma nova era. Para muitos, era a personificação da “caça aos marajás” e da promessa de um “Brasil novo”. Esse evento não apenas deu à F40 uma visibilidade instantânea, mas também cimentou sua imagem como um ícone da liberdade de importação e um embaixador da nova ordem econômica.
Após seu estrelato no Salão do Automóvel, o carro foi vendido via importação independente e permaneceu no Brasil. Desde então, sua trajetória tem sido pontuada por aparições públicas que sempre causam frenesi entre os entusiastas. A F40 brasileira foi avistada em diversas grandes cidades, de Florianópolis a São Paulo, e em eventos de prestígio, como o Encontro de Carros Antigos em Araxá, Minas Gerais, e edições do Dream Route, uma caravana de superesportivos que percorre o país. Cada aparição é um lembrete do seu status lendário e da sorte que o Brasil teve em manter esta joia em solo nacional. Para os amantes de design automotivo lendário e experiência de direção visceral, cada vislumbre é um presente.
Detalhes Íntimos de uma Lenda Brasileira: Curiosidades sobre a F40 Única
A Ferrari F40 brasileira, configurada na cor Rosso Corsa – o vermelho clássico que é sinônimo da marca –, carrega consigo não apenas a mística inerente ao modelo, mas também uma série de curiosidades que a tornam ainda mais especial e única dentro do panorama do colecionismo de alto nível.
A Incrível Durabilidade dos Pneus Originais (ou a Baixa Utilização)
Um dos fatos mais surpreendentes sobre esta F40 é a longevidade de seus pneus. Os pneus originais, desenvolvidos especificamente para a F40 (Pirelli P Zero Corsa System), permaneceram no carro por quase três décadas. A primeira troca de pneus só ocorreu em setembro de 2019, ou seja, há cerca de seis anos. O custo dessa operação, que envolveu a aquisição de um jogo de pneus de alta performance e a mão de obra especializada, girou em torno de R$10.400,00 na época. Esse detalhe singular é um testemunho eloquente de como o carro foi cuidadosamente preservado e rodou muito pouco ao longo das décadas. Para um carro de performance extrema, a manutenção de carros raros exige atenção meticulosa a cada componente, e os pneus, sendo o único ponto de contato com o solo, são cruciais.
Quilometragem Baixíssima: Um Tempo Cápsula sobre Rodas
Intimamente ligada à história dos pneus, a quilometragem da F40 brasileira é outro ponto de fascínio. Em 2012, durante uma de suas raras aparições públicas em uma exposição, o odômetro da Ferrari F40 registrava a impressionante marca de aproximadamente 6.400 km rodados. Considerando que o carro chegou ao Brasil em 1990, isso significa uma média de menos de 300 km por ano. Atualmente, a quilometragem exata não é amplamente divulgada, mas especialistas e entusiastas acreditam que ela permanece bem baixa, provavelmente ainda abaixo dos 10.000 km. Essa condição de “novo” para um carro de mais de 35 anos não apenas eleva seu valor no mercado de superesportivos, mas também solidifica seu status como um item de colecionador de valor inestimável, quase um investimento em carros clássicos em estado de arte.
Capa de Revista e Símbolo de uma Nova Era
Desde sua chegada ao Brasil, a F40 não foi apenas um carro, mas um fenômeno cultural. Rapidamente, ela se tornou um objeto de desejo e um símbolo da nova liberdade automotiva. Jornalistas especializados tiveram a rara oportunidade de conduzi-la em testes de pista, e o carro estampou as capas das mais renomadas revistas automotivas da época, como a lendária Quatro Rodas. Sua imagem na capa, à época, não representava apenas um carro rápido; ela era a materialização de um sonho para milhares de brasileiros, um presságio de que o mundo automotivo estava finalmente se abrindo para o país, e que supercarros antes vistos apenas em pôsteres agora podiam, de fato, circular pelas ruas brasileiras.
A Vitrine dos Sonhos na Platinuss (2010)
Em 2010, há cerca de 15 anos, a extinta concessionária de luxo Platinuss, um paraíso para os amantes de carros exóticos em São Paulo, criou uma vitrine de Natal inesquecível. Para celebrar a temporada festiva, eles expuseram na fachada de seu showroom, em uma Praça do Vaticano no Jardim Europa, uma constelação de hipercarros que faria qualquer colecionador salivar: um Spyker C8, um Pagani Zonda F Clubsport Coupé, um Bugatti EB110 SS e, para coroar a exposição, a única Ferrari F40 do país. Essa cena, que podia ser vislumbrada até mesmo através do Google Maps na época, tornou-se um marco para os entusiastas brasileiros, representando o auge do luxo e da exclusividade automotiva que o país havia alcançado. Era um verdadeiro museu a céu aberto, um testemunho do investimento automotivo exclusivo que estava florescendo no Brasil.
O Santuário da Fera: Onde a F40 Reside Hoje
Após sua venda inicial e algumas passagens por diferentes proprietários, a Ferrari F40 brasileira encontrou seu lar definitivo há mais de uma década. Ela agora é a estrela principal de uma coleção privada de prestígio, a FBF Collezione, localizada na cidade de Ribeirão Preto, no interior do estado de São Paulo.
A FBF Collezione não é apenas uma garagem; é um santuário dedicado à excelência automotiva. Embora a F40 seja inegavelmente a joia da coroa e um dos maiores ícones da história automobilística global, a coleção abriga outros exemplares igualmente impressionantes da marca de Maranello, como uma F355 GTS, uma 599 GTB e uma F430, ilustrando a diversidade e a profundidade da paixão por Ferrari do proprietário. Além dos cavalinhos rampantes, a FBF Collezione é lar de outros carros raros e desejados, incluindo todas as gerações do lendário BMW M3, um elegante Aston Martin DB11 e muitas outras máquinas que representam o ápice do design e da engenharia automotiva.
Ribeirão Preto, com sua atmosfera propícia a coleções de alto nível e eventos automotivos, provou ser o local ideal para abrigar um tesouro como a F40. A paixão pelo colecionismo de alto nível, muitas vezes discreta e meticulosa, garante que este exemplar único da F40 continue sendo mantido em condições impecáveis, preservando seu legado para as futuras gerações. A presença da F40 nesta coleção privada não apenas assegura sua conservação, mas também reforça a importância do Brasil no cenário global do colecionismo de veículos clássicos e superesportivos.
F40s no Brasil: Uma História de Idas e Vindas (e uma Réplica Notável)
A pergunta “Quantas Ferrari F40 existem no Brasil?” é comum e frequentemente gera debates acalorados entre os aficionados. A resposta é, de fato, apenas uma para unidades rodoviárias e com permanência legal. No entanto, a história das F40s em solo brasileiro é um pouco mais complexa, com algumas visitas pontuais que adicionam camadas à narrativa.
A Visita Efêmera de 1995: O Advogado Italiano
Em 1995, durante o evento “Brasil-Itália”, uma celebração da rica herança da imigração italiana em São Paulo, uma segunda F40 fez uma breve aparição. Um advogado italiano, apaixonado por sua máquina, trouxe seu próprio exemplar para exposição no evento, que englobava atrações de arte, música, cinema, moda e, claro, carros fantásticos. A presença desta F40 foi um deleite para os olhos, mas, para a tristeza dos entusiastas, sua estadia foi transitória. Após o término do evento, o carro retornou ao seu país de origem, deixando apenas memórias e fotografias.
As F40 GTEs de Competição (1996)
O ano de 1996 marcou a presença de duas Ferrari F40 GTE, versões de corrida ainda mais brutais do que o carro de rua, no Brasil. Esses exemplares de pista participaram do Circuito Gran Turismo BPR Brasil, uma série internacional de corridas de resistência, com etapas disputadas nos autódromos de Curitiba e Brasília. Equipadas com motores que entregavam até 700 cv, essas F40s de competição representavam o auge da engenharia de corrida da Ferrari, oferecendo um espetáculo inesquecível de velocidade e som. No entanto, após as competições, ambas as F40 GTEs também retornaram ao exterior, sublinhando que a permanência era sempre temporária.
A Questão da Réplica: Paixão vs. Autenticidade
Ainda hoje, muita gente se questiona: “Não existem duas Ferrari F40 no Brasil?”. A confusão é compreensível, mas a resposta é enfática: não, ao menos não duas unidades legítimas e originais. Além da F40 original que é tema deste artigo, há de fato uma réplica notavelmente bem construída em Campo Grande, Mato Grosso do Sul. Este projeto é fruto da paixão e dedicação de um entusiasta, que, sonhando em ter sua própria F40, decidiu construí-la artesanalmente em casa.
A qualidade da réplica é tamanha que, para um olhar menos treinado, ela pode facilmente ser confundida com o original. No entanto, é crucial distinguir a paixão do construtor e a engenharia artesanal da autenticidade e do valor histórico de um exemplar original da Ferrari. Embora a réplica seja um testemunho impressionante da habilidade e devoção ao design automotivo lendário, apenas a F40 da FBF Collezione detém o status de única Ferrari F40 original e residente no Brasil, um ícone automobilístico global com uma história ininterrupta.
O Legado Duradouro: Mais que Velocidade, um Símbolo
A Ferrari F40 no Brasil é muito mais do que apenas um supercarro veloz ou um investimento automotivo exclusivo. Ela é um símbolo potente, um catalisador de mudanças e um pedaço da história automobilística global que se entrelaça com a nossa própria trajetória. Sua chegada em 1990 marcou o fim de uma era de isolamento e o início de uma nova liberdade de mercado, acendendo a chama da paixão automotiva para uma geração de brasileiros que agora podia sonhar com o que antes era inatingível.
Ela representa a admiração nacional por carros de verdade, por máquinas que exigem habilidade e oferecem uma experiência de direção pura e sem filtros. Sua presença contínua em solo brasileiro, mantida com dedicação em uma coleção privada, é um testemunho da crescente cultura de colecionismo de alto nível no país e da valorização de supercarros com um legado tão rico.
Em 2025, enquanto o mundo automotivo caminha rapidamente em direção à eletrificação e à condução autônoma, a Ferrari F40 permanece como um farol de uma era passada, um lembrete visceral da engenharia mecânica em sua forma mais sublime. A única F40 do Brasil não é apenas um carro raro; é uma lenda viva, um ícone que continua a inspirar e a fascinar, perpetuando o legado da Ferrari e a paixão inabalável por automóveis que transcendem o tempo. Sua história é um convite a celebrar a beleza da engenharia, a emoção da velocidade e o poder dos sonhos que movem o mundo sobre rodas.

