A Saga Esquecida do Koenigsegg CCXR E100 Platinuss Special: Um Hypercar Visionário Made in Brazil (Quase)
Em 2025, o panorama automotivo global é um turbilhão de inovações, com a eletrificação e a busca por combustíveis alternativos dominando as manchetes. No entanto, em meio a essa corrida futurista, é fundamental recordar marcos que, anos atrás, pavimentaram caminhos e testaram limites. Um desses momentos, muitas vezes relegado às notas de rodapé da história dos hypercars, é a saga do Koenigsegg CCXR E100 Platinuss Special – uma máquina que, por um breve período, encarnou a audácia brasileira no cenário automotivo de alta performance e que, até hoje, inspira debates sobre sustentabilidade e potência.
Um Vislumbre do Passado e uma Visão de Futuro
Voltemos a 2010. O mundo da alta performance automotiva era dominado por motores a gasolina, e a ideia de um hypercar com mais de 1.000 cavalos de potência movido a etanol puro soava como ficção científica para muitos. Contudo, foi exatamente essa a aposta ousada de um grupo de visionários brasileiros, liderados por Natalino Bertin Jr., fundador da então proeminente loja de luxo automotivo Platinuss. A ideia era não apenas trazer um Koenigsegg para o Brasil, mas transformá-lo em uma declaração global sobre o potencial do etanol – um combustível que o Brasil domina como nenhum outro país.
O Koenigsegg CCXR, já em sua versão padrão, era um monstro de engenharia, um dos poucos veículos no mundo capazes de desafiar a física com sua aceleração e velocidade máxima. Lançado em 2007 como uma evolução “flex” do aclamado CCX, ele já flertava com a sustentabilidade ao ser projetado para rodar com E85 (85% etanol, 15% gasolina), entregando impressionantes 1.018 cv. Mas a Platinuss queria mais: queria um carro 100% etanol, um verdadeiro “embaixador” da tecnologia brasileira de combustível limpo para o mundo dos hypercars.

A Gênese de uma Lenda Dourada e Verde
A proposta de Natalino Bertin Jr. ao próprio Christian Von Koenigsegg, o lendário fundador da marca sueca, foi nada menos que revolucionária. Bertin acreditava que o etanol brasileiro, com suas características de octanagem e combustão, poderia não só igualar, mas superar a potência da versão E85. E Christian Koenigsegg, sempre um inovador, aceitou o desafio.
Uma amostra do nosso etanol nacional viajou para a gélida fábrica da Koenigsegg em Ängelholm, na Suécia. Ali, engenheiros de elite mergulharam em estudos e testes rigorosos. O que parecia uma simples mudança de combustível era, na verdade, um intrincado balé de reengenharia: ajustes finos na Unidade de Controle Eletrônico (ECU), modificações nos sistemas de injeção de combustível e vedação para lidar com as propriedades corrosivas do etanol puro, e adaptações nos sistemas de refrigeração para gerenciar o calor extra gerado. O resultado? Um aumento drástico na potência, de 1.018 cv para incríveis 1.100 cv. O Koenigsegg CCXR E100 Platinuss Special não era apenas mais potente; era uma afirmação de que a alta performance e a sustentabilidade podiam, sim, coexistir.
É vital contextualizar a posição do Brasil em 2010 (e ainda hoje) como líder mundial em tecnologia de etanol. Embora o termo “100% etanol” seja amplamente utilizado, na prática, o combustível é cerca de 95% etanol com outros aditivos para garantir estabilidade e performance. No entanto, a designação “E100” no nome do carro simbolizava um compromisso quase absoluto com este combustível renovável. Este marco técnico colocou o Brasil no mapa da inovação automotiva de elite, mesmo que por intermédio de uma marca sueca.

A apresentação do CCXR E100 Platinuss Special no Salão do Automóvel de Genebra de 2010 foi um momento de glória. Exposto ao lado do sucessor, o Koenigsegg Agera S, o “brasileiro” roubou a cena, não apenas por sua potência brutal, mas por ser um testemunho do potencial do etanol como combustível de alta performance em escala global.
Além da Performance: Detalhes Exclusivos e Desafios de Homologação
O que tornava o CCXR E100 Platinuss Special tão único, além de seu coração movido a etanol?
A Identidade E100: O “E100” não era apenas um adesivo; era um selo de inovação e um diferencial ambiental. Enquanto a versão original, E85, representava um passo em direção à sustentabilidade, a adaptação para E100 era um salto quântico, tornando-o um dos primeiros hypercars a abraçar plenamente um combustível renovável. O sufixo “R” em CCXR já indicava uma versão “Race” ou “Revisada”, diferenciando-o do modelo CCX base, e a adição do “E100 Platinuss Special” solidificou sua exclusividade.
Cavalaria Amplificada: Os 1.100 cv não eram apenas um número; eram a prova da eficácia do etanol em motores de alta compressão. A capacidade de extrair 82 cv adicionais apenas com a otimização para o etanol demonstrava a engenhosidade por trás do projeto e o potencial inexplorado deste combustível. Para quem busca um hypercar etanol com performance superior, o CCXR E100 antecipou o futuro em mais de uma década.
Acessórios Exclusivos e Funcionais: A personalização ia além do motor. O carro exibia um aerofólio traseiro distinto, inspirado na experiência da Koenigsegg com o famoso programa Top Gear. Após um incidente onde o piloto de testes “The Stig” acidentou um CCX sem aerofólio na pista de testes, a marca desenvolveu este componente para gerar mais downforce, garantindo maior estabilidade em altas velocidades e curvas, um testemunho da constante busca da Koenigsegg pela perfeição e segurança. Além disso, placas internas com a logomarca da Platinuss e a inscrição “E100 Special” celebravam a parceria e a singularidade do projeto. Cada detalhe reforçava a identidade de um carro exclusivo Brasil.
O Desafio da Homologação no Brasil: A vinda de um hypercar de 1.100 cv para o Brasil não era apenas uma questão de importação; era um complexo desafio de homologação. O Brasil, conhecido por suas regulamentações ambientais rigorosas e exigências de segurança veicular, impõe um caminho tortuoso para veículos de produção limitada e engenharia tão extrema. Foram necessárias adaptações não apenas no motor, mas em diversos componentes para atender às normativas locais, um verdadeiro teste para a engenharia automotiva sueca em terras tropicais. Esse processo de adequação, por si só, já representava um grande investimento e um gargalo para a comercialização de veículos de alta performance veículos etanol em nosso mercado.
Um Preço à Frente do Seu Tempo: Na época, o preço pedido por essa joia sueca era de aproximadamente R$ 6 milhões. Em 2010, essa quantia era estratosférica, tornando o carro acessível a um punhadinho de compradores. Hoje, em 2025, podemos olhar para trás e entender a valorização intrínseca de ativos raros. Um investimento carros de luxo daquele calibre, com sua exclusividade e inovação, seria como investir em Bitcoin em seus primórdios: poucos entenderam o potencial na época, mas o valor real se revelaria com o tempo. A preço Koenigsegg Brasil naquela conjuntura refletia um mercado ainda em formação.
O Mais Rápido de Sua Geração: Em seu lançamento, o Koenigsegg CCXR E100 Platinuss Special foi, de fato, um dos carros mais potentes e mais rápidos do mundo já fabricados pela Koenigsegg. Sua capacidade de aceleração e velocidade máxima, combinadas com a eficiência do etanol, o colocavam no panteão dos gigantes automotivos, estabelecendo novos padrões para o que um veículo sustentável alta performance poderia alcançar.
O Destino de uma Unidade Visionária
Apesar de toda a inovação e pompa, o Koenigsegg CCXR E100 Platinuss Special enfrentou um destino agridoce. Após a Platinuss fechar suas portas e, talvez o mais doloroso, não encontrar um comprador para esta obra-prima no Brasil, o carro retornou à Suécia.
Na fábrica da Koenigsegg, ele passou alguns meses em exibição, servindo como um troféu da capacidade da marca em inovar e explorar novas fronteiras com combustíveis alternativos. Contudo, rumores persistentes na internet, e que fazem sentido do ponto de vista prático e comercial, sugerem que o carro foi posteriormente convertido de volta para a configuração E85 e, mais tarde, até para a versão CCX, perdendo parte de sua identidade única e de sua potência máxima, caindo para os 806 cv originais. Se verdadeiro, esse desfecho reflete as complexidades do mercado e as demandas de clientes que, por vezes, priorizam a versatilidade ou a facilidade de manutenção sobre a exclusividade absoluta de um “E100”.
Onde Repousa a Lenda em 2025?
Atualmente, registros do CCXR E100 Platinuss Special são escassos, mas o consenso entre os entusiastas e colecionadores de carros é que ele reside no showroom da Koenigsegg em Ängelholm, Suécia. É um local de acesso restrito, e poucos brasileiros tiveram o privilégio de vê-lo pessoalmente. Recentemente, um renomado colecionador brasileiro – conhecido por possuir um trio invejável que inclui uma Ferrari LaFerrari, um Bugatti Chiron Sport e um Pagani Utopia em solo nacional – teve a oportunidade de visitar o santuário da Koenigsegg e testemunhar de perto a máquina que um dia carregou o sonho brasileiro.
Por Que Apenas Um? A Imersão no Mercado de Hypercars
A existência de apenas uma unidade do CCXR E100 Platinuss Special é um reflexo multifacetado do mercado de hypercars em 2010, especialmente no Brasil.
O mercado brasileiro de superesportivos no início dos anos 2010 era, comparativamente ao de 2025, bastante restrito e imaturo. Embora houvesse um nicho de entusiastas, a infraestrutura para a importação, manutenção e revenda de veículos do calibre de um Koenigsegg ou Bugatti era incipiente. O mercado era dominado por marcas mais estabelecidas como Ferrari e Lamborghini, cujas redes de concessionárias e serviços eram mais robustas. Trazer um Koenigsegg para esse cenário era uma aposta audaciosa, que exigia não apenas capital, mas também um profundo entendimento das complexidades logísticas e tributárias.
Além do preço exorbitante – que já era de aproximadamente US$ 1,5 milhão antes mesmo da chegada ao Brasil –, os impostos brasileiros catapultavam o custo final para perto dos R$ 6 milhões. Esse valor o tornava um bem acessível para uma parcela mínima da população, mesmo entre os super-ricos.
O fato de o carro ter permanecido à venda por um período considerável, tanto no Brasil quanto na Suécia, sem encontrar um comprador, foi um duro lembrete da imaturidade do mercado de luxo automotivo da época. Em 2025, o cenário é diferente: há mais colecionadores informados, uma infraestrutura de serviços mais desenvolvida e um apreço maior por carros exclusivos e históricos.
A Koenigsegg, como uma marca de ultra-luxo, é sinônimo de exclusividade. Sua filosofia de produção limitada torna cada veículo uma peça de arte sobre rodas. A tabela de produção das variantes do CCX/CCXR ilustra essa raridade:
Koenigsegg CCX (2006-2010): 29 unidades
Koenigsegg CCGT (2007): 1 unidade
Koenigsegg CCXR (2007-2010): 8 unidades
Koenigsegg CCXR Special Edition (2007): 2 unidades
Koenigsegg CCX Edition (2008): 2 unidades
Koenigsegg CCXR Edition (2008): 4 unidades
Koenigsegg CCXR E100 Platinuss Special: 1 unidade
Koenigsegg CCXR Trevita (2009-2010): 3 unidades
Koenigsegg CCR Evolution (2011): 1 unidade
Esses números sublinham o status quase mitológico de cada Koenigsegg e, em particular, do E100 Platinuss Special. Ser a única unidade de uma variante tão específica e tecnologicamente avançada o eleva a um patamar único no mundo dos colecionáveis.
O Valor Atual de um Koenigsegg CCXR em 2025
Para o entusiasta ou investidor em carros de luxo em 2025, a pergunta sobre o preço Koenigsegg CCXR é complexa. Os valores variam drasticamente dependendo da versão, condição e histórico do veículo.
Versões “Mais Simples”: Atualmente, unidades do CCXR em configurações consideradas “mais básicas” (se é que existe algo básico em um Koenigsegg) podem ser encontradas no mercado internacional a partir de US$ 800.000.
Versões “Intermediárias”: Edições ligeiramente mais exclusivas ou com alguma personalização podem variar entre £ 1.400.000 e £ 1.800.000 (aproximadamente US$ 1,7 milhão a US$ 2,2 milhões, dependendo da taxa de câmbio).
Versões “Super Extremas”: Modelos como o CCXR Trevita, com sua carroceria de fibra de carbono tecida com diamantes, ou outras edições ultra-raras e históricas, podem facilmente ultrapassar os US$ 4.000.000. Em alguns leilões e vendas privadas, esses valores podem ser ainda maiores, refletindo a demanda crescente por raridades automotivas.
No Brasil, a dificuldade em precisar um preço Koenigsegg Brasil em reais é ainda maior devido à ausência de comércio regular desses veículos. A conversão direta de moedas estrangeiras para o real, embora útil para uma estimativa inicial, não reflete a realidade. A elevada carga de impostos de importação, taxas e impostos sobre veículos de luxo no Brasil adicionaria um prêmio substancial ao valor final, tornando a aquisição ainda mais proibitiva e o investimento carros de luxo ainda mais complexo.
É importante notar que esses preços são dinâmicos. Carros deste calibre não são apenas meios de transporte; são ativos que se valorizam com o tempo, especialmente aqueles com histórias únicas e produção limitada. A valorização de carros de luxo tem sido uma tendência consistente na última década, transformando-os em uma categoria de investimento alternativa atraente para fortunas globais.
Um Legado Duradouro de Inovação e Audácia Brasileira
O Koenigsegg CCXR E100 Platinuss Special, embora nunca tenha encontrado um lar permanente em solo brasileiro, permanece um capítulo fascinante e inspirador na história automotiva. Ele foi um testemunho da capacidade de inovação e da ousadia de empreendedores brasileiros que sonharam em colocar o país na vanguarda da tecnologia de combustível sustentável para hypercars.
Em 2025, à medida que a indústria automotiva se volta para soluções cada vez mais ecológicas, a visão por trás do CCXR E100 parece ainda mais profética. Ele provou que a performance extrema e a responsabilidade ambiental não são mutuamente exclusivas, e que o etanol brasileiro tinha, e ainda tem, um papel crucial a desempenhar nesse futuro. É um lembrete vívido de que a paixão por automóveis pode ser um motor não apenas para a velocidade, mas também para o progresso e a sustentabilidade. A história desse hypercar etanol é um legado de audácia, inovação e um pouco da alma brasileira, eternamente gravada na fibra de carbono e no motor a etanol de uma máquina extraordinária.

